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Escrito por Renato Modernell às 18h13
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LEONARDO E O VELHO MUNDO
Conheço pessoas que preferiram não ir às exposições simultâneas, na Oca, sobre o corpo humano e sobre Leonardo da Vinci. Acharam programa de índio pagar para ver corpos dissecados e cópias de quadros e engenhos.
Acabei indo. O borbulhamento de escolares, admito, dificulta a imersão nos temas, mas o evento é para eles. É básico, panorâmico, um pouco artificial. Os cadáveres têm tanto silicone, tanta química, que só com algum esforço os encaramos como pessoas que um dia falaram e respiraram. Nesse quesito, o museu de cera de Madame Tussaud, em Londres, dá de dez.
Quanto a Leonardo, bem, seria insensato esperar que trouxessem de Paris o original da Mona Lisa. E pergunto-me se isso faria tanta diferença para adolescentes habituados às telinhas de cristal líquido.
As exposições da Oca conversam entre si. Diante dos corpos dissecados, que ainda hoje provocam inquietude, é inevitável pensar na solidão de Leonardo, há quinhentos anos. Numa época em que a Inquisição pegava pesado, ele procurava desvendar o funcionamento da vida com seu trabalho clandestino na calada da noite.
Mas esse mesmo Leonardo que se interessava por tudo (da anatomia à arte, da construção civil ao vôo dos pássaros) não deu a mínima bola, que eu saiba, para as caravelas e as grandes navegações. E, note-se, era apenas um ano mais jovem que Colombo. Não vivia no litoral, mas estava muito perto, em Florença, dos banqueiros que financiavam os empreendimentos marítimos que partiam da Península Ibérica. Era impossível que nas ruas e tavernas toscanas não se falasse no Novo Mundo. Leonardo não ouvia?
"Os verdadeiros artistas estão apenas interessados no que se passa dentro da sua cabeça", diz o escritor John Banville. Eis a razão pela qual Leonardo, ao contrário de Colombo, não estava nem aí para o Novo Mundo. Queria saber do Velho Mundo: sua própria cabeça. Aquele relicário, aquele ambiente assombroso e inacessível tanto às caravelas quanto às lâminas de dissecação.
Outro navegador das águas interiores, Freud, disse de Da Vinci algo que poderia ter dito de si próprio, compondo uma das mais belas metáforas que conheço: "Leonardo foi um homem que acordou sozinho no meio da noite, quando todos os outros continuavam a dormir". É por causa de homens desse tipo que o mundo gira. E a Lusitana roda.
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AVISO: O blogue permanecerá em recesso durante o mês de julho. Volta em agosto, reformulado no aspecto visual e na periodicidade da publicação dos textos.
Escrito por Renato Modernell às 14h15
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O LADO ÍNTIMO DA GLOBALIZAÇÃO
Que eu saiba, nunca se fez um estudo (talvez nem um samba) sobre essa parceria tão tradicional quanto o café com leite: motorista e cobrador de ônibus. Este último, no Brasil, sobrevive aos cartões magnéticos. Precisamos de alguém para dar ou não dar bom-dia.
Motorista e cobrador derivam da figura solitária de Caronte, o barqueiro do Inferno que acumulava as funções de transportar passageiros e embolsar moedas. Tendo a mesma origem, são capazes da sintonia que se espera entre médico e anestesista, armador e centroavante.
No tempo das galochas, entrava-se no ônibus pela porta de trás. O cobrador ficava longe do motorista. Agora a catraca é no meio. Cobrador e motorista, como Sancho e Quixote, podem conversar a poucos metros um do outro:
> Mas é que o cara tá xavecando a cunhada.
Os passageiros acompanham em silêncio. Para eles, a viagem é um estorvo temporário. Mas, para o motorista e o cobrador, que não passam na catraca, o ônibus é um planeta que não se move. Estão sempre lá dentro. Sua conversa pode se arrastar o dia inteiro, entrecortada:
< Só que o outro falou que vai lá fazer a caveira dele.
O cobrador não lida com alavancas e pedais. É como um mestre-de-cerimônias. Indica o próximo ponto ao penitente que tomou o ônibus errado. Consola a senhora gorda, descomposta por uma freada brusca, uma arrancada raivosa. O cobrador sabe o que se passa na alma do motorista. Se dá, intercede junto a ele pelo bancário ansioso em descer antes do ponto. Se não dá, despista o estudante de mochila:
> Ele levou multa na semana passada. O fiscal tá de olho.
Trânsito parado na Rebouças. Trinta, quarenta minutos, e nada. Um calor abafado no interior do (sim, senhor) coletivo. O cobrador, sabendo que o parceiro está estressado, se esquiva de lhe repassar os insistentes pedidos para abrir a porta.
> Fale o senhor mesmo com ele.
Aí, não dá mais. O ônibus vira uma panela de pressão. Para evitar o estouro da boiada, o cobrador bate com a aliança na barra da catraca. As portas se abrem. Temendo que o motorista mude de idéia, os passageiros se arrojam, aos trambolhões, para o canteiro central da avenida.
O trânsito logo volta a andar. Desconcertados, os passageiros evadidos vêem o ônibus, quase vazio, se mover em direção ao centro. Lá dentro, só o motorista e o cobrador. Afinal, o coletivo é só deles.
Escrito por Renato Modernell às 13h17
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A ARTE DE NÃO ABRIR GARRAFAS
O Estadão de domingo passado, 3 de junho, trouxe uma declaração curiosa de Gabriel García Márquez. Segundo o editor Sérgio Machado, da Record, o escritor colombiano teria certa vez se definido como um "comunista aristocrático".
Acho que devíamos começar por tirar as aspas da expressão usada por Márquez. Embora ela possa se mostrar esdrúxula, em tese, vai parecer natural se a olhamos de outro modo. Explico-me. Comunista é alguém que, até por almejar um mundo paritário, com oportunidades iguais para todos, quer algo absolutamente fora do cardápio. A igualdade nunca existiu. Não digo que não possa existir. Digo apenas que lutar por isso é exigir o mais maravilhoso uísque puro malte no boteco vagabundo da História, que fede a pinga barata.
O comunista, portanto, é um aristocrata do desejo. E justamente por ser o oposto disso, tão austero, tão pluralista, em seu ideal político. Vou mais longe. Acho que qualquer artista ou pessoa sensível tem de se haver com o mesmo conflito básico. É a dor pensar o mundo de forma democrática, mas senti-lo de forma aristocrática, refinada. Não me refiro a um modelo político, é claro, mas à convicção genérica e profunda de que, nesta vida, a qualidade importa mais que a quantidade.
Imagine, leitor, que você por descuido venha a abrir uma garrafa mágica. De dentro dela, sai um gênio. Ele se apresenta e lhe dá a chance de voltar no tempo e evitar uma, apenas uma, entre duas tragédias ocorridas em Nova York.
A primeira delas é a de 8 de dezembro de 1980. Um homem foi assassinado em frente ao Edifício Dakota. A segunda é a de 11 de setembro de 2001. Cerca de 3 mil pessoas perderam a vida no World Trade Center. O que você faria?
A cabeça (democrática) diz: é óbvio que devo evitar a tragédia em que morreram milhares de pessoas, em vez de apenas uma. O coração (aristocrático) diz: mas aquela única vítima, no primeiro caso, foi John Lennon. E um homem como ele, puro malte, é necessário ao mundo.
Não desejo ao leitor, nem a García Márquez, nem a mim nem a ninguém, o desconforto de um dia ficar diante de um dilema desse tipo. Mas, por via das dúvidas, evite abrir garrafas sem saber ao certo o que tem lá dentro.
Escrito por Renato Modernell às 08h43
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A INVASÃO DA REITORIA
Minha jovem filósofa e querida amiga:
Terça-feira, no almoço, você me pediu a opinião sobre a invasão da reitoria da USP. A pergunta me honra. Uma música antiga recomendava não se confiar em ninguém com mais de trinta anos. Talvez seja certo, até porque o passar do tempo nos induz ao raciocínio inverso. Você verá.
Não sei bem o que dizer sobre essa invasão. Não me agrada. Mas talvez seja despeito porque, no meu tempo, não invadimos absolutamente nada. Aliás, eles é que invadiam.
Minha opinião, portanto, não é relevante. Você, sim, mais tarde, com base na experiência de hoje, dirá aos jovens se invadir algo serve para alguma coisa. Ok, servir sempre serve. Quanto mais não seja, para testar os limites do mundo e gastar a energia que nos sobra antes dos trinta.
Por preguiça, confesso, não refleti sobre todas as reivindicações de vocês. Mas discordo de que divulgar as contas de uma universidade pública seja ferir sua autonomia. Pelo contrário, acho que vocês deviam defender a expansão da transparência. Isso, sim, talvez fosse uma revolução. Temos de inventar novas maneiras de realizar o sonho de Sierra Maestra.
No tempo da ditadura, um certo ministro da educação chamou um ativista estudantil ao seu gabinete. Inverteu os papéis: ofereceu-lhe a própria cadeira e perguntou o que faria se estivesse em seu lugar. Gosto dessa história.
Vocês ocupam a reitoria há mais de um mês. Passada a euforia inicial, já era tempo de nos mostrarem (in loco) como se deve dirigir uma universidade. Assim como ao menos tentaram fazer os operários que ocupavam fábricas. Se desse certo, calariam os que acusam os invasores de arruaceiros. Mas invadir uma coisa e paralisá-la, simplesmente, não me parece uma idéia brilhante.
Claro, a invasão da reitoria é também um pequeno festival de Woodstock. Um dia vão fazer um filme sobre isso. Você o verá com nostalgia. Por mais que essa ocupação seja um equívoco, sei que você está no lugar certo, na hora certa. Talvez no fundo eu quisesse estar perto de vocês. Mesmo para ser vaiado.
Escrito por Renato Modernell às 08h44
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AOS NOVOS JORNALISTAS
Despeço-me, um a um, dos novos jornalistas que logo vão sair da faculdade com um diploma na mão e uma idéia na cabeça: vencer na vida. Daqui a algum tempo vão começar a nos contar como é o mundo lá fora. A nós, que estamos aqui dentro.
Dentro do quê? Dentro da nossa esperança. Alguns desses jovens (poucos) gostariam de cobrir uma guerra, como eu também quis na juventude, mas não deu; outros (muitos) sonham com uma copa do mundo; e os pragmáticos se acomodarão de bom grado em assessorias de imprensa.
Esses jovens de hoje são tão diferentes de nós, os Sgt. Pepper's de outrora, e no entanto tão iguais. Jornalista ainda quer mudar o mundo. Tento dizer-lhes que isso é, ao mesmo tempo, possível e impossível. Mas só entenderão mais tarde, pelo espelho retrovisor.
No meu retrovisor, agora, vejo o rosto de Ernest Hemingway. Jornalistas da velha guarda sonhavam escrever como ele, prêmio Nobel, e sobretudo viver como ele, globe-trotter. Batalhas, touradas, e depois encher a cara entre belas mulheres no Harry's Bar.
Hemingway sentenciou: "O jornalismo pode ser uma excelente profissão, desde que abandonada a tempo". Idéia cínica? Não creio. O fato de se encarar o jornalismo como atividade transitória não o desmerece, mas o qualifica.
Amsterdã é uma cidade fascinante porque seus habitantes temporários são a maioria esmagadora da população. As pessoas trazem dentro de si o pressuposto de que aquilo ali é por certo tempo. Amsterdã é um laboratório.
O jornalismo também é. Ou pode ser. Nele, aprende-se coisas preciosas que mais tarde podem fazer a diferença em qualquer outra profissão. Primeiro, a captar tendências. Segundo, a desenvolver algo que chamarei de "instinto transversal". Terceiro, a lidar com a insegurança. E ela é o tango que se dança no mundo de hoje.
Recomendo aos jovens a leitura de The wisdom of insecurity, de Alan Watts, guru da contracultura. Uma antiga tradução brasileira talvez possa ser garimpada em sebos. Enquanto buscam esse livro raro, talvez impossível, sei lá, terão de se mover pelas ruas de São Paulo de olhos bem abertos. E então, sem sentir, vão aprender sozinhos a separar o joio do trigo.
Escrito por Renato Modernell às 12h47
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E AGORA MAIS ESSA
Anos atrás acompanhei uma novela. A única. Chamava-se Barriga de aluguel. Gostei do argumento, da trama, da pegada inicial. Tudo supimpa, digamos, até os 30 minutos do segundo tempo. Aí caiu numa lengalenga. Nada se resolvia. Para cada coisa, parecia que precisava abrir comissão de inquérito, como fazem os congressistas. O autor, se me permitem, passou a empurrar a história com a barriga.
Pouco depois, comentei isso com um dos atores, que por acaso me apresentaram numa festa. Ele confidenciou-me que nem o próprio elenco agüentava mais aquele chove-não-molha. Espicharam a novela por interesse dos anunciantes, creio, ou por algum outro fator externo. Merchandising, sei lá. Toda novela é meio que uma barriga de aluguel.
Por que, pode-se perguntar, milhões de pessoas adoram telenovelas se elas estão sujeitas a injunções e protelações? Simples: por mais que se arraste, toda novela um dia terá fim. Um ponto final. Nesse dia muita gente vai desmarcar o dentista. E até o dentista vai gostar, porque também quer chegar em casa cedo e assistir ao último capítulo.
A certeza de que, mais cedo ou mais tarde, haverá um último capítulo torna as telenovelas mais sedutoras que o noticiário cotidiano. O fato de tratar-se de eventos reais ou imaginários é, a meu ver, secundário. O que nos interessa é o desfecho, o ajuste de contas, a catarse. Por isso o país quase pára nas noites do último capítulo das novelas, como se fosse uma final de campeonato. Já a vida pública é um emaranhado de histórias sem fim. Não há último capítulo.
Um autor de novela, mais rápido que um juiz, já teria concebido um grande final colocando atrás das grades um certo ex-governador de São Paulo adepto de obras superfaturadas. Mesmo que para isso tivesse de fazer merchandising dos famosos pastéis de Campos do Jordão.
Certo, já o botaram na gaiola uma vez, mas por pouco tempo. Anda soltinho da silva xavier. Agora li no jornal que ainda estão vasculhando contas dele no exterior. Essa novela jamais terá um último capítulo, como provavelmente aquela outra que começou com as novas mutretas no Congresso.
Barriga de aluguel, pelo menos, demorou mas terminou. Que coisa, a vida real, hein? Parece até que, quando uma novela não termina, é porque a gente também faz parte do elenco.
Escrito por Renato Modernell às 19h07
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O AGÁ DO HOLOCAUSTO
Desculpem, prefiro Vargas Llosa como ensaísta do que como romancista. No domingo retrasado, o Estadão publicou um artigo dele com título provocativo: "Em defesa do direito de mentir". Llosa criticava a decisão do Parlamento Europeu de tornar a negação do Holocausto um delito passível de punição.
Concordo. Como ocorre com Llosa, é óbvio, não me passa pela cabeça relevar o extermínio de milhões de pessoas pelos nazistas na Segunda Guerra Mundial. O fato é inquestionável. Mas, se alguns historiadores o contestam, tentar cerceá-los pela instauraução de uma verdade oficial faz disso uma emenda pior que o soneto.
Quem levaria a sério um governo americano que decidisse punir os que duvidam do criacionismo ou mesmo da chegada do homem à Lua? Essas pessoas existem. Não podem existir?
Essa sandice do Parlamento Europeu é preocupante justamente porque ocorre nas barbas de uma longa tradição iluminista, e não sob a burca de um país muçulmano. Seu objetivo (político e, portanto, imediatista) é frear o movimento neonazista. Mas, ao lançar mão de um recurso obtuso, o dogma, demonstra que ninguém está livre de contrair o vírus do pensamento totalitário, e menos ainda quem o combate.
Já vimos esse filme. Pergunto-me se, séculos atrás, a própria necessidade de fazer frente ao invasor não terá tornado o europeu meridional meio semelhante ao inimigo islâmico, que sempre misturou questões de Estado e assuntos religiosos. Mas isso é outra história.
Voltemos ao Holocausto. Não creio que alguém, em sã consciência, possa contestá-lo. Mas pode-se discutir, isto sim, esse agá maiúsculo inicial. A tradição parece assegurar aos judeus o copyright dessa palavra de origem grega, como se seu sofrimento merecesse maior reverência.
Ora, toda a história da humanidade foi feita à base de chacinas. No atacado (como nos campos de concentração) ou no varejo (como nas periferias brasileiras). O que varia é a capacidade das vítimas em produzir testemunhos e denúncias. Os judeus a têm, e muito.
Não havia um Spielberg entre os índios tamoios que no século XVI habitavam as cercanias da Lagoa Rodrigo de Freitas, no Rio de Janeiro. Sabemos apenas que os portugueses os exterminaram com roupas contaminadas por varíola. Mas não sabemos se aquele holocausto tropical, embora com agá minúsculo, foi menos sinistro que o das câmaras de gás.
Escrito por Renato Modernell às 15h46
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PONTO FACULTATIVO
Hoje fui beneficiado por um ponto facultativo. Está na hora de fazerem uma tese sobre o assunto. Nada traduz tão bem a essência da alma nacional quanto o conceito de um dia de oficioso ócio não declarado no calendário. O ponto facultativo é uma espécie de caixa-dois.
Devo esta sexta-feira livre à visita de Joseph Ratzinger a São Paulo. Ele infernizou o trânsito mais ainda que George W. Bush, algum tempo atrás. Por conta disso, muitos professores foram liberados do trabalho.
Ponto facultativo: conheço esta expressão desde que me entendo por gente. Quando guri não sabia o que ela queria dizer, ao pé da letra, mas nela captava a imprecisão capciosa que a todos deliciava. No tempo das galochas, os homens falavam em "ponto facultativo" com a mesma ambigüidade irônica com que se referiam às "mulheres de vida fácil". Ruim com elas, pior sem elas.
Uma sociedade tropical precisa de linguagem cifrada. O Brasil seria irreconhecível, talvez inabitável, sem o ponto facultativo. Ele já pressupõe a futura ausência como quando logramos nos desvencilhar de um chato:
> Quem sabe marcamos um almoço qualquer dia desses.
< Claro, me ligue quando estiver mais folgado.
A vida não pode existir sem acordos tácitos. Quem terá inventado essa jóia da coroa, o ponto facultativo? Só pode ter sido o mesmo sujeito que concebeu o ponto-e-vírgula e o purgatório. Este último, vale lembrar, surgiu no imaginário cristão muito depois do céu e do inferno, como zona intermediária entre os dois extremos. É um ambiente de luz difusa e referências fracas, e que por isso exige muito da consciência individual. O ponto facultativo é assim. Em cada lugar, alguém tem que decidir se seus subordinados devem ou não trabalhar.
Hoje resolvi dar folga ao meu despertador. Dormi até as tantas. Sou grato a Ratzinger -- embora considere suas posições tão abomináveis quanto as de Bush -- por ter-me facultado a chance de não bater ponto esta manhã. Sem sua visita, não teria havido este meio-feriado que, como o ponto-e-vírgula, é uma pausa restauradora.
Sendo o tema desta crônica tão representativo da cultura nacional, proponho às autoridades que instituam um novo feriado: o Dia do Ponto Facultativo. A data exata fica para ser decidida pelo Congresso, que aliás é especialista no assunto.
Escrito por Renato Modernell às 14h34
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O SGT. PEPPER'S E OUTROS VINIS
Há quarenta anos, em maio de 1967, os Beatles lançavam o Sgt. Pepper's Lonely Hearts Club Band. Mais que um marco na história do rock, esse long-play foi o ideário estético de uma geração. A minha. Esta que hoje já controla colesterol e triglicérides. Mas tudo bem. O Sgt. Pepper's continua ali em cima da estante, já em baites, não em vinil.
Quanto se vê as coisas de longe, até parece que saíram do nada. O Sgt. Pepper's não foi uma ilha de luz, uma estrela solitária, mas a culminância de um processo. Nos dois discos precedentes, Rubber Soul e Revolver, os Beatles já tinham saltado à frente de todos. Até os Rolling Stones os imitariam em vários momentos, inclusive com o LP Their satanic majesties request, simulacro pretensamente dionisíaco do próprio Sgt. Pepper's.
Não poucos apreciadores dos Beatles em seus primórdios (inclusive meu professor de inglês) torceram o nariz, incomodados, quando eles inovaram nos versos e sonoridades. A partir do Rubber Soul, ficava para trás a fase juvenil (analfabeta, diria Frank Zappa) e previsível do rock, para se entrar numa era polifônica, lisérgica, experimental. Foi um salto equivalente ao da bossa nova em relação ao samba.
O Sgt. Pepper's impactou tanto o mundo musical que até um gênio do jazz, Miles Davis, se deu conta de que precisava se reciclar. Bebeu no rock e concebeu o fusion, estilo inaugurado em seu LP In a silent way, em 1969.
Em 1966, no Revolver, os Beatles já haviam feito o seu fusion ou pelo menos flertado com outras concepções musicais, até mesmo indianas. A faixa Got to get you into my life, por exemplo, é jazzística. Hoje chego a pensar que esse disco, menos comentado que o Sgt. Pepper's, foi o verdadeiro ponto de ruptura.
O Sgt. Pepper's foi emblemático, claro. Acho justo que seus 40 anos sejam celebrados. Porém, quando o tive em mãos pela primeira vez, num dia de verão, eu mais ou menos já sabia o que esperar dos Beatles. O Revolver, antes, exigira mais de mim. Ao ouvi-lo, senti que precisava mudar minha cabeça. É isto o que até hoje espero dos grandes artistas. Minha geração foi mal-acostumada com aqueles vinis tipo o Sgt. Pepper's.
Escrito por Renato Modernell às 17h19
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IDÉIAS GÊMEAS
Sim, há idéias gêmeas. Parece que um sujeito plagia o outro, a distância, e vai ver não é nada disso. É que eles tinham a mesma musa. Ou, sem saber, viajaram no mesmo trem, olhando a mesma paisagem.
Albert Einstein disse: "Nossos problemas de maior magnitude não podem ser resolvidos ao mesmo nível de raciocínio em que estávamos quando os criamos".
Carl Gustav Jung disse: "Os maiores e mais importantes problemas da vida são, no fundo, insolúveis; e deve ser assim, uma vez que exprimem a polaridade necessária e imanente a todo sistema auto-regulador. Embora nunca possam ser resolvidos, é possível superá-los mediante uma ampliação da personalidade."
Não são idéias gêmeas? Sim, claro que são. Só que Einstein referia-se ao mundo, ao futuro da humanidade. Formulou sua frase, creio, temendo a guerra atômica. Hoje se fala menos no assunto, mas não faltam exemplos confirmatórios.
Um deles é a questão ambiental. Cabeças que pensam do mesmo modo positivista como aquelas que criaram a máquina a vapor jamais acharão importante frear o desmatamento da Amazônia. Entre essas duas visões da vida há um salto quântico necessário.
Jung diz a mesma coisa que Einstein, porém a aplica ao plano do indivíduo. Não há propriamente como resolver (no sentido tecnológico da máquina a vapor) um medo, uma dor, uma perda, uma doença, um vício.
Quem desafia seu maior fantasma para um duelo frontal, com ares de espadachim, perde. Em geral, perde. Para superá-lo, é preciso crescer, vê-lo do alto, entre tantos outros fantasmas; minimizá-lo como se fosse o ícone no canto da tela do computador. Sem jamais querer espetá-lo com a espada. Um dia nos damos conta de que aquilo já não é tão importante.
Gosto dessas idéias gêmeas de Einstein e Jung. Além de luminosas, podem ser úteis quando nos encontramos numa sinuca de bico. Porém eu as formularia assim: certos problemas da vida não são mesmo para ser resolvidos, mas sim dissolvidos.
Ah, sim, o solvente. Quase ia me esquecendo de dar o nome. Existem vários. Um deles, de larga aplicação desde épocas imemoriais, é o tempo. Se nada resolve, o tempo dissolve. Mas não deixa de ser uma solução.
Escrito por Renato Modernell às 18h08
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AS MUITAS FACES DO DIABO
Se há várias maneiras de acreditar em Deus, há outras tantas de acreditar no Diabo. A mais poética é a que Guimarães Rosa propõe no Grande Sertão. Satã se anuncia em um redemoinho. O vento, claro, é invisível. O Diabo é a coisa que gira.
Mas podemos decifrar o gênio do mal por meio da etimologia. Penetremos na palavra: Diabo derivaria do grego diábolos, que desune, diz o dicionário. O Diabo é a coisa que separa.
Ontem tive razões para acreditar nisso. Peguei na locadora, ao acaso, um belo filme de 2004, A noiva síria, de Eran Riklis. A história se passa em um povoado druso nas colinas de Golã, território ocupado por Israel na fronteira com a Síria após a Guerra dos Seis Dias, em 1967. A vida de uma família é infernizada, em dia de casamento, pelos entraves burocráticos que impedem a noiva de encontrar o noivo. Ele vive do outro lado de barreiras militares entulhadas de armas e carimbos. Para casar, a jovem precisa atravessar a zona sob controle da ONU.
A situação, kafkiana, ridícula, seria apenas o argumento de uma comédia romântica para se assistir comendo pipocas, se não fosse o retrato trágico do mundo em que vivemos. Acham sempre que a solução é separar. Satanizar. Cercear o movimento das pessoas. Controlar.
Ontem vi no jornal que uma brigada militar americana está construindo um muro de concreto de 5 km de extensão e 3,5 km de altura. Onde? Em Nova York? Em Chicago? Claro que não. Em Bagdá. Querem isolar o distrito sunita de Adhamiya de seu entorno xiita.
Ora, sunitas e xiitas que se entendam. Os americanos não tinham nada que estar no Iraque, e já estão lá há quatro anos. Na marra. Os israelenses não tinham nada que estar em Golã, e já estão há quarenta. Na marra.
Imagine se alguém arromba a sua casa e levanta uma parede no meio da sala. Você reclama. O invasor responde que está ali para lhe prestar um serviço: separar o joio do trigo.
Não foi isso o que fizeram em Berlim? Ok, aquele muro não existe mais. Mas Satã, esse sim, parece que continua existindo. Em sua homenagem, continuam construindo muros e barreiras, aqui e ali. Sempre na ilusão de que viver melhor é viver em compartimentos estanques. E outra: que o carimbo vai fazer justiça.
Acreditem: a burocracia é outra face do Diabo.
Escrito por Renato Modernell às 08h05
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O RESTO É SILÊNCIO
Proponho ao indulgente leitor conjecturar o que poderia haver em comum entre personagens tão díspares quanto esses que vou listar agora.
Carmen da Silva (1919-1985), jornalista e escritora, foi uma das pioneiras no país em assuntos feministas durante os 22 anos em que trabalhou na revista Claudia.
Chinesinho (Sidney Colonia Cunha, 1935), craque do Internacional e do Palmeiras na década de 1950, brilhou na seleção brasileira e depois na Itália, onde sagrou-se campeão nacional pelo Juventus em 1966.
Almirante Tamandaré (Joaquim Marques Lisboa, 1807-1897), herói nacional, patrono da Marinha, comandou a força naval brasileira na Guerra do Paraguai.
Barão de Itararé (Aparício Torelly ou Aporelly, 1895-1971), decano dos humoristas brasileiros, auto-intitulou-se barão em memória de uma batalha que não houve.
General Golbery do Couto e Silva (1911-1987), intelectual militar interessado em geopolítica, foi mentor da doutrina da segurança nacional, propondo o alinhamento do Brasil ao bloco ocidental.
Grace Gianoukas (1964), atriz de teatro e TV, dirige o bem-sucedido espetáculo Terça Insana, em forma de teatro de revista.
Pois bem. Visto que o leitor, diante da tela, dificilmente terá paciência para levar esta reflexão às máximas conseqüências, vou logo abrindo o jogo. Os seis personagens em questão, em algum momento de suas vidas, tiveram contato com um certo tipo de biscoito que poucos conhecem.
Apresenta a forma da letra vê ou, como alguém já lembrou, das duas menores falanges, articuladas, do dedo mínimo da mão. Mas tem o curioso nome de "vovó-sentada", porque deve ter vista nele a silhueta de uma velhinha prostrada.
É cor de palha, crocante, salgado, feito apenas com farinha, banha, água e sal. Algo em seu sabor remete à infância e a dias de muito vento. Come-se de modo obsessivo, aos borbotões, como acontece com pipocas.
Poucos conhecem a "vovó-sentada" porque, à semelhança dos grandes vinhos, ela só é produzida numa porção restrita do globo terrestre. Coordenadas geográficas: 32º01'40" de latitude sul e 52º05'40" de longitude oeste. O resto é silêncio.
Escrito por Renato Modernell às 09h44
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O RABINO E O CONTROLADOR DE VÔO
Por motivo de viagem, recupero assuntos que rolaram na mídia na semana passada. Agora já estão na feira de retalhos, em cantos de página.
Um: o rabino Henry Sobel furta gravatas de grife e é preso nos Estados Unidos. Dois: no Brasil, os controladores de vôo infernizam a vida de milhares de passageiros, inclusive deste escriba eletrônico.
No primeiro caso, trata-se de um homem de alta visibilidade. Está em todas. Mas, internado em São Paulo, evita os jornalistas e sai do hospital pela porta dos fundos. No segundo caso, trata-se de homens dos quais pouco se sabia até poucos meses atrás. Vivem reclusos à obscuridade desses mosteiros tecnológicos que são as torres dos aeroportos. Aí resolvem mostrar que fazem um trabalho crucial na aviação, como se dissessem: "Temos o país nas mãos, não nos pisem no poncho".
No Sul, li um artigo em defesa do rabino. O autor o considera sobretudo uma vítima da própria compulsão. Fala em sua "necessidade psicológica" de surrupiar objetos, como uma espécie de álibi.
Parece-me plausível, no caso do rabino. Mas isto não nos impede de fazer uma pergunta incômoda. Se aceitamos a dita necessidade psicológica como atenuante à cleptomania, por que não haveríamos de aceitá-la em situações mais chocantes como a pedofilia, a traição ou o terrorismo?
Ora, um certo fator obscuro, acima da vontade, acima mesmo das vantagens materiais, quase sempre se faz presente nas ações humanas. De algum modo, queremos ser aquilo que não somos.
O rabino Sobel tem recursos de sobra para comprar a gravata que bem entende. E depois exibi-la às câmeras. É uma figura pública. Mas isto não basta. Como não basta ao controlador de vôo ser esse herói incógnito, trancado na torre. Talvez ele sonhe voar, como os pilotos. Quer ter uma cara diante do mundo, como o rabino.
Acho que um menino não fica no semáforo só pelo dinheiro, quando faz malabarismos no ar com três ou quatro laranjas. O controlador de vôo faz a mesma coisa com dez ou quinze aviões. Ao mesmo tempo. É um artista. Agora todo mundo sabe disso.
Do rabino, ao contrário, já sabíamos bastante. Mas queremos sempre algo mais, entre o céu e a terra, além dos aviões de carreira. Ninguém é de ferro, claro. Só espero que não venham me dizer que o Dalai Lama tem a ficha suja.
Escrito por Renato Modernell às 15h24
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O CONSÓRÇIO
Também fiquei intrigado. De longe, parecia mancha de sujeira ou ponto de ferrugem. De perto, confirmei a pior suspeita: era uma cedilha no cê. Sim, a placa que dá informações oficiais sobre a obra (parada) da futura estação Oscar Freire do metrô refere-se ao Consórçio (sic) da Linha Amarela.
Concordo: a cedilha é um problema. Bem, o ponto G também é. No entanto, o presidente da república demonstrou em público que sabe muito bem onde ele se situa, mesmo admitindo que a educação, no Brasil, é a pior do mundo.
Uma cedilha a mais ou a menos, consórçio, conçórsio, tanto faz, isso não influi na inflasão nem na tacha de juros. Mas porém todavia contudo, confesso, ver aquela cedilha numa avenida onde circulam milhares de pessoas, para mim, foi tão desagradável quanto morder um parafuso dentro de um pastel.
Torço pela prefeitura em sua queda-de-braço com os empresários da publicidade para fazer valer a Lei Cidade Limpa, que proíbe propaganda externa em São Paulo. Mas aquela cedilha na placa do Metrô me fez caraminholar outras coisas.
Primeiro: essa lei não devia valer também para órgãos públicos? Ora bolas, se eles gastam tinta para propalar que cumprem suas funções, isto é propaganda do governo. Motoristas de ônibus também cumprem suas funções, quietos no seu canto.
Segundo: órgãos públicos não deviam ser os primeiros a escrever direito? Seria compreensível que o Bar do Mica, na Capote Valente, que como tantos outros expõe o cardápio na calçada, escrito em giz, anunciasse baurú com acento, mixto com xis e calabreza com zê. Faz parte da tradição, tem sabor próprio, como a gordura velha grudada na chapa.
No entanto, o Bar do Mica está nos trinques do ponto de vista da higiene gramatical. Aí, dobra-se a esquina e aparece a placa do Consórçio da Via Amarela. A cedilha nos faz temer que o concreto usado na obra siga o mesmo padrão de qualidade. Uma cratera começa por uma fissura. A educação no Brasil já foi muito melhor do que hoje.
Terceiro: se a prefeitura quer combater a poluição visual e sonora, não deveria também atentar para a poluição ortográfica? Se o ensino fundamental anda tão ruim, os funcionários do Metrô bem que podiam fazer estágio no Bar do Mica. Ali, até lasanha é com esse.
Escrito por Renato Modernell às 07h52
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